Ju=F3 = Bananere
e a caricatura verbal

Muitas obras = escritas no Brasil do come=E7o do s=E9culo 20, mas hoje esquecidas, = poderiam ser resgatadas por uma leitura que lhes restitu=EDsse o = car=E1ter da "belle-=E9poque"


Desde que o per=EDodo liter=E1rio compreendido entre 1900 e 1920 = foi batizado por Trist=E3o de Ata=EDde como pr=E9-modernismo, = historiadores tem estado de acordo quanto =E0 sele=E7=E3o de obras, = embora com opini=F5es frequentemente divergentes: o regionalismo, que = para alguns antecipa o nacionalismo modernista, =E9 criticado por outros = pelo maniqueismo com que certos autores aplicam um moralismo xen=F3fobo = ao homem do interior. Fala-se em parnasianismo, e Bilac =E9 elogiado = como artes=E3o, motivo por que outros o recha=E7am. Assim costuma-se = prosseguir at=E9 a aprecia=E7=E3o un=E2nime sobre o neoparnasiasnismo e = neo-simbolismo: fazem o que outros j=E1 fizeram melhor, o que justifica = n=E3o serem citados ou inclu=EDdos em antologias. =C9 lament=E1vel que a = considera=E7=E3o sobre autores, no lugar de textos, tenha provocado o = esquecimento de obras de Em=EDlio de Menezes, Bastos Tigre, Bar=E3o de = Itarar=E9 e Ju=F3 Bananere. Parte dessa produ=E7=E3o, entretanto, pode = ser resgatada por uma leitura que lhe restitua o car=E1ter da = "belle-=E9poque".

Um dos motivos que possibilitaram o aparecimento do = "art-nouveau" no Rio de Janeiro foi, segundo Brito Broca ("A Vida = Liter=E1ria no Brasil - 1900", p. 20-45), a abertura da avenida Central, = que for=E7ou a altera=E7=E3o na postura da bo=EAmia, acostumada aos = "caf=E9s" de vielas e becos, com seu deslocamento para os amplos = sal=F5es, cujos rebatimentos espelhados denunciavam desregramentos de = mau tom. Os arabescos dos entalhes naturalistas com freq=FCencias = orientais, a moda das casacas coloridas com que Jo=E3o do Rio percorre = sob vaias o Municipal, indiciam o bom gosto das conversas entre os = partid=E1rios da =FAltima moda liter=E1ria. Os remanescentes parnasianos = n=E3o escapam a essa situa=E7=E3o, e muitos se aplicam =E0 poesia = sat=EDrica e =E0 ent=E3o nascente publicidade. E pela negatividade de = uma est=E9tica que lhes ensinara traquejos de composi=E7=E3o que podem = ser lembrados.

Autores = esquecidos

Quando se l=EAem, por exemplo, certas cr=F4nicas de Agripino = Grieco, observa-se o prazer que o encasacado duelo repentista causava = entre a bo=EAmia, em que o fraseado era um verdadeiro arabesco = "art-nouveau", a velar a idiossincrasia saudosista frente =E0 = urbaniza=E7=E3o, dispondo a agonia em ziguezagues de aporia estimulada. = E de Bastos Tigre, que tinha uma "disciplina quase cientifica do = sarcasmo" (Grieco, "Evolu=E7=E3o da Poesia Brasileira"), a par=F3dia aos = repetidos "v=F4os" metaf=EDsicos de ent=E3o:

Quem sou eu? De onde venho e onde, acaso, me leva
O destino fatal que os meus passos conduz?
Ora sigo, a tatear, mergulhado na treva,
Ou tateio, indeciso, ofuscado de luz.

Gr=E3o, no campo da vida onde a morte se ceva?
Semente que apodrece e n=E3o se reproduz?
De onde vim? Da monera? Ou vim do beijo de Eva?
E aonde vou, gemendo, a sangrar os p=E9s nus?

Nessa esfinge da vida a verdade se esconde;
O esp=EDrito concentro e consulto a raz=E3o
E uma voz interior, sincera , me responde:

- Quem =E9s tu? - Oper=E1rio honesto da na=E7=E3o.
- De onde' =E9 que vens? - De casa.
- Onde ' que est=E1s? - No bonde.
- Para onde vais? - N=E3o v=EAs? -
Para a reparti=E7=E3o.

Bastos Tigre pertenceu =E0 primeira leva da publicidade = brasileira, sendo respons=E1vel, entre outros, pelo "slogan" "se =E9 = Bayer =E9 bom", express=F5es como "credi=E1rio" e "ducal", al=E9m da = par=F3dia camoniana para o rem=E9dio contra tosses "Bromil", cujo = primeiro verso, "os homens de pulm=F5es martirizados", exemplifica a = conjun=E7=E3o de humor e coloquialismo. Quanto a Em=EDlio de Menezes, o = pr=F3prio Oswald de Andrade, numa palestra sobre a s tira no Brasil, = chegou a criticar Manuel Bandeira por t=EA-lo exclu=EDdo de sua = "Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana", e cita um de seus = poemas, calcado no "topos" dos "impossibilia", em que o humor negro = culmina na informa=E7=E3o de que o protagonista, um guarda-livros = surrado pelo marido ultrajado, portava orelhas de "tamanho = descomunal":

Morreu depois de uma sova
E como n=E3o tinha campa
De uma orelha fez a cova
E da outra fez a tampa.

A condi=E7=E3o s=F3cio-econ=F4mica da S=E3o Paulo do in=EDcio do = s=E9culo n=E3o permitia que se reproduzisse por aqui a homogeneidade da = "belle-=E9poque" carioca. O relevo da ornamenta=E7=E3o projetada por = arquitetos como Carlos Ekman e o mobili=E1rio do Liceu de Artes e = Of=EDcios conviviam com a massa de imigrantes que representavam 25% da = popula=E7=E3o do Estado em 1900. Entre 1882 e 1914, s=E3o publicados em = S=E3o Paulo 140 t=EDtulos de jornais em italiano. Na verdade, o exotismo = de personagens como Freitas Vale, promovendo jantares com card=E1pios = inspirados por Huysmans e campeonatos de pingue-pongue nos sal=F5es de = sua vila Kyrial (Brito Broca, op. cit., p. 30-32), aparece como folclore.

"Macarronismo"

=C9 nesse contexto que o estudante de engenharia Alexandre = Ribeiro Marcondes Machado substitui Anibale Scipione (Oswald de Andrade) = no jornal "O Pirralho", em 1911, para ficar famoso como Ju=F3 Bananere. = Escreveu em macarr=F4nico, termo com que se denomina a mistura de dois = ou mais idiomas para fins par=F3dicos: "a artografia muderna ' una = maniera de scriv=EA, chi a genti scrive uguali come dice' ("O Pirralho", = 1912). O ac=FAmulo de desvios gramaticais s=F3 n=E3o torna sua linguagem = entr=F3pica devido =E0 sintaxe extremamente simples e redundante com que = articula uma dic=E7=E3o normalmente exclamativa. Sua expressividade = est=E9tica aparece pelo contraste dessa l=EDngua estropiada com a = seriedade dos assuntos s=F3cio-pol=EDticos comentados, ou ainda pelo = di=E1logo mantido com personagens de outro estrato, o que o leva a uma = altera=E7=E3o de seu pr=F3prio registro, aproximando-o muitas vezes da = eloqu=EAncia de certos personagens oswaldianos: recebido com entusiasmo = na "Cademia de Cumer=E7o du Braiz", assim inicia um emocionado discurso = de agradecimento: "io st=F3 intirigno impegnorato com ista magninifica = rocepi=E7=F3 chi vuceis acaba di afaz=EA inzima di mim. =C9 moltos onra = p'run pobri marqueiz! (Tuttos munno grita: n=F3 apuiado! N=F3 apuiado!)" = (O Pirralho, 1915).

Germes = antropof=E1gicos

Ju=F3 Bananere mant=E9m certo grau de parentesco com o = personagem p=EDcaro, seja pelo realismo ing=EAnuo com que prop=F5e = solu=E7=F5es aos problemas pol=EDtico-sociais, seja por sua mobilidade = entre os figurantes dos diversos estratos, e procurando muitas vezes = somar dividendos junto aos poderosos, em suma, pela malandragem = aprendida na experi=EAncia epid=E9rmica do acaso, que costuma dar o = car=E1ter de tortuosidade barroca ao destino do p=EDcaro: recusa o = convite de um amigo para uma festa de anivers=E1rio "pur causa che o = Rodrigos Alveros mand=F4 diz=EA che mi vem avisit=E1 oggi di tardi inda = a gaza mia giunto co Artino Aranteso. Vuc=EA =E9 genti impurtante, eh = s=F3 Ju=F3? - Si fa quel que si pu=F3... dissi con una brutta = mudestia. - Ma faccia o favore, vegna l=E1 oggi, s=F4 dottore! Uh! = porca mis=E9ria! podi mi diz=EA o che quiz=E9 io non s'impreziono, ma mi = xamano co dottore, io non arisisto." ("O Pirralho, 1913).

Alc=E2ntara Machado sintetizou de certa forma a import=E2ncia de = Ju=F3 Bananere, notando-lhe o car=E1ter de produtor de "modelos de = estilo" ("Cavaquinho e Saxofone"). Suas cr=F4nicas, de qualidade = desigual num per=EDodo de mais de vinte anos de jornalismo, exibem a = "ingenuidade" corrosiva do germe antropof=E1gico, emblematizada na = descri=E7=E3o que faz do pr=F3prio bras=E3o:

"as bananera di lado s=F3 pr'a aripresent=E1 u migno nomino tamb=EA = pr'a d=E1 fruita pr'us troxa. Nu centro st=F3 io chi s=F3 u dono du = 'braz=F3' di giunto cumigo st=F3 u Piedad=F3 i o Capit=F3 chi s=F3 as = duas principale figura du Ju=F3 Minhoca politico andove st=F3 io o = imprezario, i tamb=EA pur causa chi furo illos chi serviro di scada pr'a = mim subi pr'a groria du giurnalismio indigena! Non cutuca! =E9 a migna = indivisa, pur causa chi io s=F4 molto camarada, ma buliu cumigo =E9 a = mesima cosa chi mex=EA con una caza di marimbondi!! D=F4 u strilimo!" = ("O Pirralho", 1917).

Par=F3dias = expressionistas

A maioria dos textos do principal livro de Ju=F3 Bananere, "La = Divina Increnca" (10 edi=E7=F5es entre 1915 e 1966), s=E3o par=F3dias de = conhecidos poemas da literatura brasileira, que deslocam pelo contraste = o "pathos" do original, liberando modula=E7=F5es dos interst=EDcios de = sua dic=E7=E3o. Desmitificando a aura de perenidade da elocu=E7=E3o = dram=E1tica de certos poemas e os h=E1bitos do p=FAblico leitor, = Bananere foi co-autor de um ambiente prop=EDcio ao modernismo. Essas = par=F3dias podem tamb=E9m ser lidas como tradu=E7=F5es expressionistas, = na medida em que s=E3o uma amplia=E7=E3o deformadora de procedimentos do = original. Um bom exemplo 'o seu "Amore co Amore si paga", sobre o soneto = "Nel mezzo del camin..." de Bilac, em que dissemina por todo texto os = quiasmos da primeira estrofe do poema parnasiano. Bananere rebaixa a = alegoria "pombas/ilus=F5es" estabelecida por Raimundo Correia em "As = Pombas", para relatar a desventura de um aviador "qui pig=F3 o tombo". A = leitura conjunta retrata bem a luta travada nos bastidores das = correspond=EAncias estil=EDsticas: a substitui=E7=E3o do preciosismo = existencialista parnasiano pela contradi=E7=E3o da t=E9cnica emergente:

As Pombas

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas v=E3o-se dos pombais, apenas
Raia sangu=EDnea e fresca a madrugada...

E =E0 tarde, quando a r=EDgida nortada
Sopra, aos pombais, de novo, elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Tamb=E9m dos cora=E7=F5es onde abotoam,
Os sonhos, um por um, c=E9leres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolesc=EAncia as asas soltam
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos cora=E7=F5es n=E3o voltam mais...

As Pombigna
P'ru aviadore chi pig=F3 o tombo

Vai a primeira pombigna dispertada,
I maise otra vai disposa da primiera;
I otra maise, i maise otra, i assi dista maniera,
Vai s'imbora tutta pombarada.

Passano fora o d=ED i a tardi intera,
Catano as formiguigna ingoppa a strada;
Ma quano v=EA a notte indisgraziada,
Vorta tuttos in bandos, in filera.

Assi tamb=EA o Cicero avua,
Sobi nu spa=E7o, molto al=EA da lua,
Fica piqueno uguali d'un sabi=E1.

Ma tuttos dia avua, allegre, os pombo!...
Inveis chi o Muque, desdi aquilio tombo,
Nunga maise quiz avu=E1.

Mestre da = s=E1tira

O sucesso de "La Divina Increnca" n=E3o foi apenas editorial; = seus poemas foram encenados em 1917, num total de 36 apresenta=E7=F5es. = Sua fase mais criativa antecede a d=E9cada de 20. J em 1912, por = exemplo, num artigo intitulado "A Storia do Futurismo", este cronista, = considerado por Oswald de Andrade um "mestre da s tira no Brasil" = (Boletim bibliogr=E1fico, "A S=E1tira na Literatura Brasileira"), traduz = postulados do manifesto de Marinetti -"non si pode but=E1 div=E9rbio, = n=E9 digettivo; os verso t=EA quantas sillaba a genti vulevo" - para = depois satirizar o uso metaf=F3rico do termo: "l=E1 longe v=EA vindo una = piquena muntata ingoppa un li=F3. Ella st=E1 pillada, pur causa che ista = storia =E9 futuristte, i co futuro tuttos munno t=EA di and=E1 = pillado".

Bananere n=E3o escapa do limite expressivo da pr=F3pria = caricatura, que, encravada na contradi=E7=E3o do fen=F4meno cultural, = consegue um resultado primeiro, de superf=EDcie grotesca, que estanca = diante da dedu=E7=E3o l=F3gica. Instant=E2nea, a caricatura deixa = paralisado no ar o equ=EDvoco, faz do tipo um prot=F3tipo, revelando seu = anarquismo pela sugest=E3o de um horizonte plural. Pode n=E3o ter sido = nosso melhor cronista, mas foi, sem d=FAvida, quem melhor verbalizou a = caricatura no jornalismo paulistano, gesticulando sua linguagem = burlesca.




TRAJANO VIEIRA.
in FOLHETIM n=BA 504, Folha de S. Paulo 05/10/1986, p. 10 - = 11.




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